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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Vazios do poder na “Democracia em vertigem” de Petra Costa




“Democracia em vertigem” (2019) é muito bem sucedido ao criar uma representação de um certo vazio de poder na República brasileira por meio da montagem de cenas de rua repletas de gente em protestos e manifestações contrapostas a planos interiores, lentos e solenes, em palácios presidenciais desertos em Brasília. Ao longo do filme, esse espaço de poder é ocupado sucessivamente pelos últimos três ou quatro representantes do principal cargo executivo, cada um deles mais ou menos próximos das aspirações populares profundas, numa narrativa que descreve o processo de decomposição de uma democracia por interesse das elites do Estado e das elites econômicas.

Os méritos e qualidades técnicos e artísticos do filme são inúmeros, e uma lista de elogios possíveis tornaria este texto muito extenso. Por isso, mesmo ciente de que nenhum documentário jamais será capaz de abranger na totalidade o fenômeno que retrata, quero ater estes comentários apenas a possíveis omissões que, por sua importância, a meu ver, parecem enfraquecer a tese central de “Democracia em vertigem”. São críticas que faço não em detrimento da obra, mas em prol do que ela tem de melhor: o encadeamento dos fatos na elucidação do caminho percorrido pelo país até aqui. Suponho que, para desenvolver plenamente seus argumentos, com fidelidade ainda maior aos eventos históricos, o filme de duas horas precisaria de mais uns 30 minutos de duração, de modo a incluir episódios, momentos, personagens e instituições não apresentados na tela.

Antes, uma observação quanto ao que me parece uma incorreção (política?). Minha primeira objeção a “Democracia em vertigem” é quanto às imagens de fundo utilizadas nas cenas da gravação do diálogo de Dilma-Lula (tomadas externas noturnas) e Temer-Joesley (tomadas externas do nascer do dia), numa imprecisão factual que levanta certa desconfiança quanto a seu intuito – na verdade, se trata mesmo de uma inversão, já que é de amplo conhecimento que a primeira conversa se deu em dia claro, num fim de manhã, e a segunda, já tarde da noite. Seria casual ou intencional essa opção narrativa?

Passo agora às omissões que me parecem mais importantes, seguindo a cronologia dos fatos históricos: 1) A eleição indireta de Temer como presidente, pelo Congresso, com características de conspiração, e a composição de seu governo junto à oposição derrotada nas eleições de 2014 merecia uma abordagem um pouco mais detalhada, por se relacionar diretamente ao tema central do filme: o encolhimento da participação popular e o aprofundamento de um processo de decomposição da democracia. 2) Não há no filme qualquer menção ou referência à atuação um tanto dissonante de Teori Zavascki no contexto da Lava Jato, nem à morte inesperada do ministro do Supremo Tribunal Federal. Aliás, dos grandes protagonistas do período, o STF e o Judiciário como um todo são bastante poupados de exposição em “Democracia em vertigem”: recordo apenas um primeiríssimo plano de Ricardo Lewandowski (na sessão final do impeachment, no Senado) e uma menção em off a Gilmar Mendes (no episódio da nomeação de Lula como ministro-chefe da Casa Civil). Uma maior presença do STF no filme, atuando como suporte ou contraponto (variando a depender do momento) aos outros poderes, seria um elemento fundamental para a riqueza documental da obra, esclarecendo a forma como o STF é aludido numa fala de Moro no Congresso, em que ele defende seu próprio trabalho pelo fato de ser “sufragado pelas altas instâncias” e sugere que questionar suas decisões como juiz seria questionar o próprio Judiciário. 3) Não há, no documentário, registro da intimidação (mais propriamente, ameaça) ao STF feita pelo comandante do Exército, general Villas Bôas em abril de 2018, com o assentimento tácito de Temer (que não repreendeu publicamente seu subordinado pela indevida ingerência política no processo do julgamento de Lula). Tal como o Judiciário, o Exército dos dias de hoje pouco aparece no filme, embora tenha gradualmente ocupado, ao longo dos anos que são acompanhados pela narrativa, um espaço cada vez maior na cena política, fenômeno no qual a intervenção de Villas Bôas foi um dos momentos culminantes. Por se tratar, neste caso, de um filme sobre a decomposição da democracia, que expõe tão bem o autoritarismo da ditadura civil-militar anterior, ter incluído esse episódio seria essencial para pintar o quadro completo de aparente ruptura em curso. 4) A elipse entre a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro também compromete, em parte, a força da tese do longa, ao não abordar as eleições de 2018 e as inúmeras anormalidades ocorridas durante a campanha (a proibição de entrevistas de Lula à imprensa, o atentado a Bolsonaro, a ausência do candidato vencedor dos debates mais importantes, o disparo em massa de notícias falsas). Ao omitir a figura de Haddad, “Democracia em vertigem” dá a entender uma continuidade natural entre a prisão de Lula e a vitória de Bolsonaro, contribuindo indiretamente (espero!) para consolidar como legítima a eleição deste como presidente e inserindo o atual estado de coisas numa falsa “normalidade” institucional – impressão que acaba por atenuar (ainda que de maneira muito sutil) a gravidade do próprio fenômeno que prentende documentar.

O filme termina com um plano sequência aéreo que parte do Congresso Nacional em direção ao centro de Brasília, numa tomada que espreita na direção oposta ao frame de encerramento de “Tropa de elite 2”, de José Padilha (que focaliza o palácio do Congresso do ponto de vista de quem está no centro da capital). Esse contraponto com uma obra bastante anterior (2010), que já discutia o tema da infiltração do crime organizado nas polícias do Rio de Janeiro e nos três poderes, estabelece uma discreta ligação de “Democracia em vertigem” com um dos principais problemas em pauta na fase Bolsonaro: a infiltração das milícias num aparente vazio de poder político que, com recorrência, domina o espaço público brasileiro – vazio que o filme de Petra Costa representa com habilidade nos já citados e insistentes travellings no interior da residência presidencial oficial desocupada, como a perguntar: Quem virá preencher esse espaço? Questão pertinente, na medida em que, em política, não existe tal vazio: sempre haverá alguém disposto a preencher o espaço e capaz de angariar apoio para tanto. As linhas que se entrecruzam no gramado da Esplanada representam o enorme xis da questão de um enigma nacional, mas também apontam caminhos a serem coletivamente traçados, percorridos e, se necessário, invadidos pela gente brasileira.

Wladimir Cazé 
20/06/2019
[texto publicado no jornal "A Gazeta", de Vitória/ES, em 29/06/2019]

terça-feira, 12 de maio de 2015

GOURMETIZAÇÃO DO MOFO

tenho pensado sobre como o processo de mercantilização/canonização de um autor passa pela estética das capas das reedições de seus livros. a pergunta é: o que leva a editora nova fronteira a estampar uma foto de manhattan na edição de 2015 de "morangos mofados"? isso é nonsense, visto que a única referência explícita a nova york na obra está num rápido inventário geracional que passa por outras duas capitais mundiais: “Bolsas na Sorbonne, chás com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun, little darling, 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54 (...)". então por que nova york na capa e não paris ou londres? sim, pode ser que, indiretamente, nova york esteja pairando, em alguns contos, nas citações ocasionais à morte de Lennon no Central Park (que para Heloísa Buarque de Hollanda "parece ser o tema do livro"). mas objetivamente, as narrativas se passam entre rio de janeiro, são paulo e porto alegre. a título de comparação, na capa da primeira edição existe, no plano do fundo, um paredão de arranha-céus que pode representar qualquer grande metrópole, enquanto morangos e latas de lixo ocupam o primeiro plano. em 2015, ao contrário, a associação da imagem com uma cidade específica é inequívoca e imediata (mesmo que bastante arbitrária, com relação ao conteúdo do livro), e o morango se torna uma textura asséptica (na parte superior da imagem).


domingo, 5 de abril de 2015

"(...) tudo é matéria de poesia, uma vez que traga as condições do belo ou os elementos de que ele se compõe."
"(...) uma opinião, que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local (...)"
" O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço."
"Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum."
Machado de Assis"Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade"
24/03/1873





"es nueva y arbitraria la idea de que los escritores deben buscar temas de sus países"
"nuestra tradición es toda la cultura occidental"
"podemos manejar todos los temas europeos, manejarlos sin supersticiones, con una irreverencia que puede tener, y ya tiene, consecuencias afortunadas"
"nuestro patrimonio es el universo"

Jorge Luís Borges 
"El escritor argentino y la tradicción"
1932 ?