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quinta-feira, 7 de julho de 2016


“por sonhos se entenda o que se enxerga durante o sono – e não o que se deseja nos devaneios diurnos.” (p. 69)
“Tão vastos e intemporais, os acontecimentos brotam de algum centro mais intenso, formando vagos pontos distantes, só para serem encontrados de novo, quando os núcleos e os universos se deslocam para outros sonhos.” (p. 73-74)
“que coisa mais estranha a realidade do mundo desolado e infinito, que não tem destino, significado, nem centro” (p. 77)
“A América [...] é em si mesma um sonho” (p. 129)
“O centro do interesse do sonho só pode ser recapitulado uma vez e por isso também só dá para ser transcrito em seguida [...] porque, ao lembrar e anotar mentalmente, o cérebro logo entorpece e não é mais possível agilizá-lo” (p. 133)
“tudo, tudo irreal, sonhos” (p. 137)
“num cérebro momentaneamente em repouso indigente” (p. 139)
“por algum motivo [...], a coisa toda não consegue chegar em detalhe à minha percepção” (p. 141)
“os sonhos mais fantásticos, e complexos, são irrecuperáveis para o cérebro comum que acorda de manhã” (p. 168)
“O inseto provavelmente era eu.” (p. 168)
“AO ANOTAR OS SONHOS, REPARE NA MANEIRA COMO A CABEÇA SONHADORA INVENTA” (p. 175)  
[tradução de Milton Persson]

terça-feira, 26 de abril de 2016

NOVO SONHO


O sonho me pareceu longo mas foi bastante repetitivo, podendo por isso ser descrito em poucas linhas. Estou na frente do computador, cuidando de apagar uma por uma todas as postagens do meu mural que tenham a ver com a crise política e deixando no ar apenas aquelas relacionadas com literatura, música, tradução e as outras duas ou três áreas do saber que me interessam. Passam-se muitos minutos sem qualquer outro gesto meu além do repetido movimento de apagar as postagens sobre política. No final, fica uma timeline tranquila, agradável, sem inquietações.

24/04/2016

segunda-feira, 11 de abril de 2016

PESADELO


Este sonho só pode ser considerado um pesadelo, dado o número de vezes que a imagem do rosto de Michel Temer nele aparece. Temer já é o presidente da república, e lá estou eu, comparecendo a seu gabinete, pela primeira vez, para assumir a função de assessor de imprensa da presidência. Temer me recebe de maneira fria e formal, e junto com seus assessores dá início a uma espécie de ritual que naquele momento entendo ser um procedimento preliminar à minha iniciação no serviço. O ritual consiste no seguinte: sobre uma mesa retangular, coberta apenas por uma toalha de mesa, os assessores de Temer cerimonialmente começam a posicionar três objetos diferentes. Infelizmente não me recordo de quais eram os outros dois objetos [enquanto sonhava, quis me levantar para anotar esses detalhes, porém o caráter de pesadelo do sonho me manteve inerte na cama], mas com toda certeza um deles era uma pequena urna de cor cinza-azulada. De imediato eu [que já analisava o sonho dentro do sonho, enquanto sonhava] observo que não se trata de uma urna eleitoral, daquelas dos tempos pré-urna eletrônica, nas quais através de uma fresta se inseria o papel com o voto, mas de uma urna cinerária, das que são usadas para guardar as cinzas de um corpo cremado. Desse modo, meu ritual de ingresso no novo emprego tem um certo aspecto funerário. Quando os assessores enfim colocam a urna e os outros objetos na mesa, em posições rigorosamente equidistantes, Temer se volta para mim e faz o único gesto minimamente simpático de todo o sonho: pisca um olho e pergunta: “Foto?” Com isso entendo que ele me convida a posar, a seu lado, diante da mesa, para documentarmos o acontecimento. Mas não é isso o que Temer deseja: um pouco impaciente, ele gesticula para que todos se afastem e, segurando a câmera, encarrega-se ele próprio de fotografar a mesa com a urna e os outros dois objetos. Nesse momento eu percebo que para Temer as pessoas não têm a menor importância. Acordo.

Wladimir Cazé
10/04/2016

domingo, 10 de abril de 2016

OUTRO SONHO


Esse novo sonho foi mais confuso que o anterior, dele guardei menos detalhes. O cenário agora era o palácio da presidência do Paraguai. Ao chegarmos, eu e B. encontrávamos uma das entradas em péssimo estado de conservação: lixo, excrementos, restos de comida, maus odores, entulho, insetos, escuridão. Sabíamos que havia outras entradas no palácio, mas aquela era a que nos interessava, porque a informação turística que tínhamos era de que ela seria a “entrada da cultura”, local onde supostamente elementos da arte do país poderiam ser apreciados. Daí nossa enorme decepção ao encontrar o que deveria ser um símbolo da cultura do país em tal estado de descaso e abandono. Mesmo assim, insistimos em entrar por ali, com a ideia de tentar conversar com o presidente da república e convencê-lo a editar um “Ato constitucional” voltado à recuperação daquela parte do prédio e, por consequência, da cultura nacional (delírios de turista que já chega querendo interferir na vida local). Nisso estamos quando, de repente, “Lá vem o presidente”, vemos que ele se aproxima, mas nesse ponto eu desperto ou o sonho termina.

Wladimir Cazé
08/04/2016

sexta-feira, 8 de abril de 2016

UM SONHO

Tudo começa com uma frase lida numa revista: “Em 1985 a Rede Globo tentou dar um golpe e impedir a posse de Tancredo Neves”.
[Eu nunca soube antes de nenhuma informação parecida, mas ela não é inverossímil; se considerarmos que Tancredo realmente não foi empossado presidente, o suposto plano pode de fato ter se realizado.]
Depois da frase na revista, a cena do sonho acontece num edifício da Rede Globo, para onde um político ou jurista importante, aliado de Tancredo [se não o próprio Tancredo], é chamado para uma reunião com o poderoso Marinho de plantão, para discutir a situação política nacional. O político [ou jurista, ou Tancredo] vai à reunião disposto a resistir e expor a firme determinação do presidente eleito de assumir o governo a qualquer custo. Acompanhando o convidado, estão presentes outros políticos, alguns jornalistas (da Globo e de empresas concorrentes), entre eles – ainda como estudantes de jornalismo – eu e alguns colegas (reconheço vagamente Carlos Rocha).
A reunião acontece numa sala do prédio similar a um restaurante de luxo. Quando chegamos, o Marinho já está sentado numa poltrona, sozinho, fumando um charuto. Ele cumprimenta a todos com ar de superioridade e certa indiferença. Sente-se alguma tensão no ambiente. Querendo dar ao evento um tom sofisticado, o Marinho estala os dedos e pergunta a um de seus serviçais: “Fulano, nós temos aí a Carmen de Bizéti?”, e ordena: “Se tivermos, põe ela pra tocar”. A pronúncia equivocada do nome de Bizet provoca uma onda de hilaridade entre os políticos e jornalistas, mas todos seguram o riso temendo quebrar a solenidade da reunião. Porém uma mulher negra, representante do movimento negro, não se contém: “Desculpe, senhor. Nós ficamos muito tempo calados, mas agora eu não vou deixar de falar. O nome do compositor que o senhor acabou de citar não é Bizéti, é Bizet”. O Marinho não parece se abalar ao ter sua ignorância revelada em público e, com o mesmo ar de superioridade, passa à escolha dos pratos e das bebidas, novamente pronunciando palavras francesas duma maneira ridiculamente aportuguesada. O político [“Tancredo”] não dá atenção a isso, decidido a logo dar início à reunião. Mas o Marinho faz uma manobra que não entendo muito bem, troca umas poucas palavras em privado com “Tancredo” e dá a reunião por encerrada em dois minutos, antes mesmo que as bebidas e comidas cheguem à mesa, com isso de algum modo humilhando a todos os presentes, que são dispensados sumariamente.
Eu e meus colegas estudantes de jornalismo entramos no elevador para ir embora, e comentamos com indignação o que acaba de acontecer. “Um absurdo. Um idiota.” “Cuidado com o que fala aqui dentro, podemos estar sendo gravados.” “Não dá, pessoal. Temos que dar um jeito de entrar nessa profissão sem termos que trabalhar para gente assim.”
Com esse diálogo o sonho termina.
Wladimir Cazé
3 de março de 2016