domingo, 2 de novembro de 2014


"
Buenos Aires pode parecer uma cidade bonita para quem a contempla como volume levantado repentinamente no ermo. No hemisfério sul não há nada semelhante. Tem certo interesse para quem chega de fora, se ele não a imaginava possível; interesse que desaparece assim que se admite que ela pode existir e ser como a vemos. Para quem nasceu nela, ou a habita desde menino ou a avalia ligada a um texto conhecido, não interessa como cidade propriamente dita, nem mesmo como prodígio. Buenos Aires é uma cidade sem segredos, sem vísceras nem glândulas, sem dobras profundas nem cáries. Tudo o que ela é está à vista e, uma vez conhecida por fora, deixa de interessar. Carece de ontem e não tem uma forma verdadeira; quando terminar de crescer ou de formar-se, poderá ter outra muito diferente. (...)"

Ezequiel Martínez Estrada, in "Radiografía de la pampa" (1933)
Tradução: Wladimir Cazé

Foto: Archivo Fotográfic​o de Buenos Aires 1933-1980

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Quebras é um projeto de Marcelino Freire e Jorge Filholini, contemplado com o edital Rumos Itaú Cultural 2013-2014. A cada mês, a dupla visita uma das 15  capitais brasileiras selecionadas em busca de escritores e artistas cuja produção se encontra fora do eixo Rio-São Paulo. As duas primeiras viagens foram para Teresina e Belém; a terceira, para Vitória, há duas semanas, ocasião em que foram gravadas as entrevistas comigo e com Caê Guimarães (vídeos abaixo). As próximas paradas do Quebras serão Rio Branco, Maceió, Macapá, Manaus, Goiânia, São Luís, Cuiabá, Campo Grande, Porto Velho, Boa Vista, Aracaju e Palmas. Reverbera!

Parte 1


Parte 2

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DEBATE NA REFAZENDA ENTRE A CANDIDATA-TOMATE E O CANDIDATO-ABACATE


DEBATE NA REFAZENDA 

ENTRE A CANDIDATA-TOMATE 
E O CANDIDATO-ABACATE




A refazenda aguardava
o começo do debate.
Olhos e ouvidos atentos
perante do grande embate
o quinto e último ato.
Em final de campeonato
não pode existir empate.

Era claro o desconforto
da candidata-tomate:
parecia rabanete 
seguindo para o abate.
Também era perceptível
o aspecto apreensivo
do candidato-abacate.

Ali se decidiria
o destino das lavouras
pela próxima estação,
pelas gerações vindouras
(pelos séculos dos séculos?).
Legumes contra tubérculos,
cebolas contra cenouras.

O candidato-abacate
iniciou o argumento
mostrando nas estatísticas
baixíssimo crescimento.
- “A safra tem sido fraca
graças a essa bruaca.
Basta tanto sofrimento.”

A resposta foi batata:
- “Na gestão do meu partido
nunca faltou cesta básica.
Mas jamais foi esquecido
que, quando aqui governou,
seu grupo quase deixou
o país-pomar falido.”

Ele não deixou por menos,
duro e seguro sorriu.
- “Dados deste dossiê
provam que houve desvio
de verba da irrigação.
Rios e rios de corrupção 
foi tudo o que a horta viu.”

Alface dela ficou
completamente escarlate,
mesmo que dissimulasse.
A candidata-tomate
tomou um gole de água,
conteve uma lagrimágoa,
organizou o rebate.

- “Como o senhor nos explica
a existência de um iate
em seu nome, incompatível?
Sonegação-socialaite
indigna de um candidato!
Não merece ter mandato
pilantra desse quilate!”

- “Calúnia! Levyandade!”,
ele quis se defender.
- “Fica mudando de assunto,
pois fracassou no poder.
Pergunte a qualquer verdura
como a vida anda dura.
Tudo é culpa de você!”

E questionou se ela tinha
projeto para o combate
ao tráfico de agrotóxico...
Como faria o resgate
dos valores da família?...
- “Você e sua quadrilha
não vencerão o debate.”

Com esse tempero forte
tornou-se acre o negócio:
o Ruim versus o Pior.
O povo não é beócio:
diante de uma salada
amarga, insossa, estragada,
prefere não ficar sócio.

Mas os patrocinadores
mantém o canal no ar
plantando boato e escândalo 
(tudo em se plantando dá),
pra que aqui na refazenda
a distribuição de renda
possa sempre preocupar.


Wladimir Cazé


9-10/10/2014

sábado, 27 de setembro de 2014

O coração vermelho do homem sem guia


Brevíssimo romance com um livro de poemas dentro, “O sol partido” (2014), do escritor baiano João Mendonça, conta uma história de amizade e amadurecimento, composta pelos encontros e desencontros de cinco rapazes numa Salvador ensolarada. O enredo carrega um forte sentimento de comunhão juvenil que é rompido pela constatação, por parte do narrador, do distanciamento das relações e da finitude dos verões despreocupados e felizes. Ao contrário dos dois amigos que vão embora – um emigrado para o gelado norte europeu (Dinamarca), o outro para as terras frias ao sul (Argentina) –, o narrador se fixa em sua cidade calorosa, sem abandonar jamais o terreno familiar de ruas e parques. Num gesto memorialístico, ele tenta tirar uma lição de vida das separações quase sempre inevitáveis que o tempo provoca.

Com certa dose de realidade, alguns logradouros e lugares verdadeiros de Salvador são citados (Instituto Alemão, Sebo de Brandão), mas tudo acontece num mundo paralelo maravilhoso, onde as pessoas podem (literalmente) voar. Beirando o terreno onírico e alegórico da fábula, rezas e danças em grupo confluem para rituais de voo coletivo, liderados pelo ousado Rasgo, que atrai os amigos Roque, o narrador e um casal (“meu amigo” e sua mulher, Marikó) a explorar suas asas: “No retorno do voo, no controle da respiração, voltávamos a habitar o mundo sem nos preocupar se estávamos imersos na realidade ou não” (p. 17). Enquanto todos planam no ar e brincam nos galhos das árvores, um outro personagem, Coruja, permanece confinado em casa, num exílio íntimo interrompido somente pelos pequenos poemas que escreve e envia pelo celular para “pessoas ilusórias, mas reais, pessoas que sua imaginação criava” (p. 39).

São 70 poemetos (alguns breves como aforismos) que o leitor encontra agrupados em 13 blocos colocados entre os 13 curtos capítulos. A justaposição de trechos narrativos em prosa e pequenas sequências de poemas curtos, sem relação clara entre si, gera um ritmo de leitura próprio, que desafia o leitor a uma apreensão dos fragmentos em um compósito coeso. Essa dinâmica de leitura do todo e das partes não cessa ao longo de todo o livro, garantindo a abertura do sentido do texto. Após a palavra “Fim”, encontra-se, ainda, um poema um pouco mais longo, que contribui para ampliar o quadro dos gêneros literários presentes em “O sol partido”.

Essa estrutura fragmentada não é fortuita e reforça a temática da separação dos amigos, que também se expressa no título: “sol partido” porque, ícone e síntese da cidade e de uma época da vida, a estrela sob a qual todos se reuniam, e em torno da qual tinham suas experiências de descoberta, em algum momento se quebrou (partiu-se) ou se foi com o anoitecer (partiu). Imagens ligadas ao céu são frequentes no livro, muitas vezes associadas com a subjetividade ou a emoção: “O sol é vermelho e estava dentro do meu coração” (p. 23). Na mesma linha, alguns poemas se destacam, como este: “Tempestade de sol / Banhando a manhã / Espalhando amarelo / Colorindo de azul / de verde / de dia / o coração vermelho do homem sem guia” (p. 50).

O afastamento dos amigos que um dia foram tão próximos permeia vários dos poemas, como o da página 71: “Caminhamos por / caminhos diferentes. Sonhamos com / ninhos diferentes / nos portos seguros / que, juntos, um dia, desenhamos”. O narrador, por sua vez, vê a si e a seu grupo de companheiros como um bando de pássaros que aprendem a voar juntos – “Só são livres os pássaros acompanhados” (p. 13) –, mas logo percebe que cada um precisa partir para sua viagem individual.

 “O sol partido” é um livro sobre certos momentos de felicidade simples e efêmera e sobre uma fase da vida em que a despreocupação é a tônica dos pensamentos e dos dias de quem tem o futuro pela frente. Faz pensar, com alguma nostalgia, em tardes de cerveja, música e poesia: “Meu amigo chegou trazendo dúzias de laranjas (...) Sentamos nós três (...) e conversamos durante a tarde sem fim. Conversamos sobre a alegria das crianças, sobre a força do coração, o perigo dos sonhos, a amizade entre povos diferentes e o fim da vida (...)” (p. 38).

João Mendonça é jornalista e publicou anteriormente o volume de crônicas e poemas “Tá gripado? Coma gelo!” (2007). “O sol partido” é publicação resultante de edital de literatura da Secretaria de Cultura da Bahia. Com a presença do autor, o livro foi lançado em Vitória no dia 11 de setembro, no bar Cochicho (Rua da Lama). Sendo uma edição do autor, “O sol partido” pode ser adquirido, ao preço de R$ 20,00, através do correio eletrônico jjmaiamendonca@gmail.com.

Texto publicado no caderno "Pensar" do jornal "A Gazeta" de Vitória (ES) do dia 27/09/2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Clique na imagem abaixo para melhor visualização



Café Literário SESC
Dia: 12 de agosto
Horário: 19h (acesso gratuito a partir das 18h30)
Local: Biblioteca Pública Estadual do Espírito Santo
Endereço: Av. João Batista Parra, 165 Praia do Suá – Vitória/ES 
Debatedores: Júlio Pompeu e Williams Monjardim
Mediador: Wladimir Cazé

domingo, 27 de julho de 2014

Leitura na UFES

 
Data: 1º/08/2014Horário: 20h
Local: Auditório do CCHN - Campus da Universidade Federal do Espírito Santo/UFES - Vitória (ES)

terça-feira, 8 de julho de 2014

domingo, 6 de julho de 2014

saiu o novo édito papal; clique na imagem para conferir a lista atualizada dos livros proibidos pela Inquisição




quinta-feira, 10 de abril de 2014



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http://www.interventuras.blogspot.com.br/

Conheça {INTERVENTURAS}, uma série de conversas com escritores e leituras crítico-criativas de seus trabalhos. {INTERVENTURAS} é uma produção independente de CLIPOEMS (Vídeos Experimentais e Música) & LABOR.POET.CO (Laboratório Crítico-Criativo de Poéticas Contemporâneas.

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quarta-feira, 9 de abril de 2014


  
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sábado, 5 de abril de 2014


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quinta-feira, 3 de abril de 2014



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quarta-feira, 2 de abril de 2014


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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Meus 10 livros de 2013 (com alguns trechos grifados)

Não. Nada de listinha de melhores lançamentos do ano. Só uma compilação, bastante idiossincrática, de trechos que grifei em alguns dos livros que mais gostei de ter lido em 2013. E devo ter esquecido outros tantos, entre leituras acadêmicas e itens de curiosidade pessoal. (Clique nos textos-imagem para melhor visualização.)

1.
AIRA, César. Um acontecimento na vida do pintor-viajante. Tradução de Paulo Andrade Lemos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

2.
ALBEE, Edward. Who’s afraid of Virgina Woolf? New York: Signet, 2006.

3.
BECKETT, Samuel. All that fall. London: Faber and Faber, 2006.


4.
BERMAN, Antoine. A tradução e a letra ou o albergue do longínquo. Tradução de Marie-Helène Catherine Torres, Mauri Furlan, Andréia Guerini. Sette Letras/PGET, 2007.

5.
CARPEAUX, Otto Maria. O modernismo por Carpeaux. São Paulo: Leya, 2012.

6.
LLOSA, Mario Vargas. La fiesta del chivo. Madrid: Alfaguara, 2000.

7.
LORCA, Federico García. Bodas de sangre. Barcelona: Cátedra, 2010.

8.
NEW YORK DIARIES: 1609 to 2009. Edited by Teresa Carpenter. New York: Modern Library, 2012.

9.
NEUMAN, Andrés.
Bariloche. Barcelona: Anagrama, 2009.

10.
SZYMBORSKA, Wislawa. Poemas. Tradução de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

domingo, 15 de dezembro de 2013


"Qualquer relato sobre a viagem se assemelha a um ruído de vento distante, um ronco surdo que vem dessa experiência que o sentido não consegue transmitir e que apenas o estar naqueles espaços consegue produzir. Há um sentimento ambíguo de frustração e admiração, pois muito do que fora imaginado não era de fato realidade, ao mesmo tempo em que absolutamente tudo era passível de criar momentos de intensidade."

"Talvez a viagem traga apenas a possibilidade do anonimato."

Rafael Pagatini
, "Conversas com a paisagem" (UFES, 2013) - as páginas do livro não são numeradas "para possibilitar múltiplas ordenações e reconstruções"

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

pós-lida #32

vídeo-resumo do recital "Pós-Lida", que aconteceu no dia 26 de setembro, no sebo Porto dos Livros (Porto da Barra, Salvador),
com James Martins e participação de Nildão e Marcelino Freire (via skype). eu também li alguns poemas, meus e de Sandro Ornellas, André Fernandes, Orlando Lopes e Marcelo Silva.



sexta-feira, 27 de setembro de 2013


poema-colagem, Wladimir Cazé, 2013,
a partir de arte de Pedro Drummond para editora Record, 1996

sexta-feira, 13 de setembro de 2013


recorte de jornal que anda na minha carteira desde 03/04/2011
(texto de Willi Bolle na 'Ilustríssima' da Folha de SP)

terça-feira, 10 de setembro de 2013



dia 26 de setembro
às 19h30
recital em Salvador/Bahia
com telepresença minha



quarta-feira, 14 de agosto de 2013



Para algumas Pessoas existe,
na cidade, uma praça
(praças são pessoas)
que atrapalha a passagem de carros
(que são pessoas)
que precisam de velocidade
e não têm tempo a perder no trânsito
(de pessoas-carro e pessoas-pessoa)
nem podem parar para
que pessoas-pessoa possam passar.
Por isso  ̶  dizem tais Pessoas  ̶ ,
é urgentemente necessário
avenidar de uma vez essa praça
para que os carros-pessoa
possam passar no espaço que ocupa
a praça-pessoas que os atrapalha.
É assim que a cidade (que são pessoas)
precisaria destruir uma parte de si-dade
para deixar passar a outra parte da cidade-pessoas
= tirar parte do espaço que é usado por pessoas-cidade.
E dessa ideia Pessoas que se julgam donas
da cidade (mas isso Elas não dizem)
tentam convencer as pessoas-cidade
: de que seria igual vantagem para todos
(praça-pessoas, carros-pessoa, cidade-pessoas)
se aquela praça simplesmente evaporasse.
E que sobre a terra sobrasse asfalto,
já que para carros falta espaço.
E se enfiassem sob a terra num buraco
(túnel) (catacumba) (túmulo)
(mas isso Elas também não dizem)
pessoas que por pessoas
(sem faixa zebrada) (sem semáforo)
se passar acaso ainda ousassem.

terça-feira, 18 de junho de 2013

"Seek transit"


poema-colagem
(a partir de poema visual de José Paulo Paes, "Sick transit", 1973)
Wladimir Cazé (18/06/2013)

Clique na imagem para melhor visualização

sábado, 18 de maio de 2013

5 poemas meus - 2 do livro "Macromundo" (2010) e 3 do livro "Microafetos" (2005) - saíram na edição de hoje (18/05/2013) do caderno "Pensar" do jornal "A Gazeta" (Vitória/ES)

clique na imagem para ampliar




segunda-feira, 6 de maio de 2013

Traduzindo: uma página dos diários de Allen Ginsberg

clique no texto para ler







texto em inglês extraído de
CARPENTER, Teresa (org.) New York diaries: 1609 to 2009. New York: Modern Library, 2012.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Simone de Beauvoir, diário, 26/01/1947
in: "New York Diaries: 1609 to 2009",
org. Teresa Carpenter (Modern Library Paperbacks, 2012)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013



Só o som sob os homens (2013)
EP produzido por Heitor Dantas entre setembro de 2008 e outubro de 2009 no Estúdio Menasnota (Salvador/BA). 

"Barata", poema de Wladimir Cazé sonorizado por Heitor Dantas 

"Somos som", poema de Wladimir Cazé e Heitor Dantas sonorizado por Heitor Dantas 
"Caracol", poema de Wladimir Cazé sonorizado por Heitor Dantas 
"Gumes de sal e de luz", poema de Wladimir Cazé sonorizado por Heitor Dantas 
"Valsa", poema de Wladimir Cazé sonorizado por Heitor Dantas 
"Mãe café", poema de Wladimir Cazé e Heitor Dantas sonorizado por Heitor Dantas 

"Gumes de sal e de luz" pertence ao livro Microafetos, de Wladimir Cazé (Edições K, 2005)
"Barata", "Caracol" e "Valsa" pertencem ao livro Macromundo, de Wladimir Cazé (Confraria do
Vento, 2010)

vetorica@gmail.com

sábado, 29 de dezembro de 2012

"Andrógina, mestiça-city, dengosa, faceira no primeiro momento, pegajosa, porém puta e ladra. Bichona-city, desmunhecada. (...) Vou alinhavando esta trama pelos veios da Soterópolis pra ter algo parecido a sentido (...). Zarpo num coletivo que veloz atravessa a urbe-labirinto que é inferno mais ou menos controlado; cidade a inchar não convulsa de todo ainda, metal-flux a dar contorno ao cimento armado que cresce em suas encostas, baldios, supersubúrbios; cidade banhuda, que com esta paisagem fálica fica com ares de asséptica, higienizada. O tráfego em sua sístole-diátole termina o Corredor da Vitória, deslizo pela ladeira da Barra, inicia o Porto e a Orla se desfralda. (...) Curva na ponta do continente, no Farol, seguindo pela beira, praias, praias, duma ponta a outra, seus fedores marinhos."

João Filho, "Ao longo da linha amarela" (P55 Edições, 2009, ps. 18-19)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

"A partir daquele ponto pude entender o real sentido da expressão fim de mundo. Atravessar aquela fronteira entre o mundo real e aquela zona do crepúsculo era entrar em uma região apocalíptica onde as pessoas tinham sido substituídas por sombras. Tudo pelo caminho permanecia abandonado e quieto. A floresta invadia o asfalto e tornava-se cada vez mais difícil andar em alta velocidade. À beira da estrada, os vilarejos em ruínas, as choupanas sem teto serviam de viveiro para espécies vegetais. Dava dó ver casas com portas abertas e quintais vazios, barcos semi-submersos na água ferruginosa do lago ou enormes construções e complexos industriais largados ao acaso, espaços em branco na vida de alguém que passou muito tempo a construí-los." (ps. 195)

"Seguimos por um bosque entre os prédios – as árvores ali já tomavam quase tudo, como se a cidade já não fosse cidade, mas floresta – e, ainda assim, cidade. (...) Do terraço pudemos avistar a cidade-floresta estender-se frondosa. Era primavera e as árvores floriam entre os edifícios com seus genes defeituosos." (ps. 201-202)

"Nada era casa, pois nada era centro – mas sempre margem, da qual estávamos sempre partindo." (p. 207)

Márcio-André, Ensaios radioativos, Confraria do Vento, 2007 (Livro "Ensaios radioativos" em PDF)

sábado, 22 de dezembro de 2012

Em “Ocidente”, de Nilson Galvão, temos poesia praticada com afinco, cavada no cotidiano e cultivada em versos que acolhem fricções permanentes entre ideias, sensações e a voz que as escreve. São poemas sem divisões estróficas, como se, com essa opção, o poeta buscasse intensificar o efeito de suas associações bruscas de imagens, por meio de uma ligação icônica entre elas (procedimento já anunciado no texto de abertura, “Buñuel”, p. 3). Com uma espécie de gestualismo estilístico, que enfeixa fluência coloquial e leve experimentalismo, o poeta trafega entre episódios domésticos e referências cinematográficas e literárias (Cortázar; os personagens clássicos Bartleby, Quixote e Ulisses; Pessoa – que inspira “À beira do Tejo”, p. 12). Transparece ao longo da leitura uma concepção de poesia como evento que provoca um “furo no cotidiano” (p. 36), como em “Acidente doméstico” (p. 9) e “Milagres” (p. 38), dois dos melhores textos do pequeno volume em forma de envelope da coleção Cartas Bahianas. Alguns desses (e vários outros) textos de Galvão podem ser lidos no blog Blag.

Texto publicado em Verbo 21 (ano 13, nº 161, dez. 2012).


Três poemas do livro:



GUIA DE VIAGENS



A fé conduziu
Dante.
O ácido, Huxley.
Vai-se, de um jeito
ou de outro, ao inferno
e ao céu.

(“Ocidente”, Nilson Galvão, p. 13)



COMO QUEIRAM



Como queiram
os deuses, e como
não queiram.
A um só tempo,
o tempo todo.

(“Ocidente”, Nilson Galvão, p. 13)



CARO EINSTEIN



Deus não joga
dados, joga dardos,
tão profusos quanto
raios de sol rajadas
de vento. A ricochetear
nas paredes da casa:
dardos cujos alvos
mudam sem parar.

(“Ocidente”, Nilson Galvão, p. 47)



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

SEAGULL / GABBIANO / GAVIOTA / GAIVOTA: traduções de um poema


SEAGULL 

Though it flies over
avenues and beaches
of several cities
crossing valleys
far away
and returns to sea only by nightfall,
maps are all
the joyful seagull sees
.

Traslated by Patrick Brock



GABBIANO


Nonostante voli 
su corsi e piazze 
di tante città,
attraversi valli
situati distanti
e solo ritorni al mare la notte, 
il gabbiano goliardo
vede soltanto mappe.


Di Wladimir Cazé
Tradotto in italiano da Thais Bonini


GAIVOTA

Embora sobrevoe
avenidas e praias
de várias cidades,
atravesse vales
situados longe 
e só volte ao mar à noite,
a gaivota gaiata
avista apenas mapas.


Wladimir Cazé          

                      

                                       







GAVIOTA

Aunque ella vuele
por calles y playas
de tantas ciudades,
travese los valles
muy lejos de aquí
y vuelva al mar solo a la noche,
gaviota chistosa
ve solo los mapas.


Versión en español por Guilherme Darisbo 

http://www.darisbo.blogspot.com.br/




GAVIOTA 

A pesar de sobrevolar 
avenidas y playas 
de varias ciudades, 
atravesar valles 
situados lejos 
y sólo volver al mar a la noche, 
la gaviota payasa 
apenas avista mapas.


Versión en español por Antonio Carlos de Oliveira Barreto y Paula Ruth

http://barretocordel.wordpress.com/sobre-mim/




Traduções visuais: Iansã Negrão
http://www.flickr.com/people/iansa/



O poema "Gaivota" foi originalmente publicado no livro "Microafetos" (Edições K, 2005)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


"(...) uma cidade suspensa nos ramos mais altos (...), com suas fundações dependuradas como raízes aéreas de certas plantas que crescem por cima de outras." (ps. 81-82)

"Não é longe da metrópole iluminada que a floresta estende as suas sombras, mas dentro dela (...)" (p. 107)

Italo Calvino, "O castelo dos destinos cruzados", tradução de Ivo Barroso, Companhia das Letras, 1993

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

matéria que escrevi para o informativo cultural "Entreato", nº 3 (setembro de 2012), que começa a circular na Grande Vitória nos próximos dias:




Clique no texto-imagem para melhor visualização
 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012


"(...) uma imagem que se sobrepõe a outra, o quadriculado do mapa da cidade com sua constelação de cruzinhas e setas (...)" (p. 167)

"Continuo meu passeio pela avenida, que agora já não se distingue mais da imensa planície deserta e gelada. A perder de vista não há mais paredes, nem tampouco montanhas ou colinas; nem sequer um rio, um lago, um mar; nada exceto uma extensão achatada e cinzenta (...). Assim, cá estou percorrendo esta superfície vazia que é o mundo. (...) Foi há poucos segundos, ou já faz muitos séculos, que tudo cessou de existir? Ja perdi a noção do tempo." (ps. 251-2)

Italo Calvino, "Se um viajante numa noite de inverno", tradução de Nilson Moulin, Companhia das Letras, 2006.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"Nós percorremos enormes distâncias para contemplar as ruínas de antigas civilizações, mas onde estão as ruínas contemporâneas? Onde estão sendo criadas as ruínas no mundo de hoje? Onde ficam as antigas grandes cidades que agora estão sendo gradualmente abandonadas em uma lenta decadência, deixando sinais do que as futuras gerações irão escavar e encontrar daqui a mil anos?" (ps. 34-35)

"(...) era um lugar diferente, muito diferente de todas as florestas que eu já tinha visto. Nenhuma das árvores era reta; elas eram tortas, retorcidas e pareciam ter levado vidas muito interessantes. O chão da floresta era pontilhado por enormes troncos apodrecidos - corpos deformados, ancestrais dos gigantes que ainda estavam de pé." (p. 58)

"As pinturas e desenhos nas cavernas são um palimpsesto: cada geração parece ter o mais completo desrespeito pelo trabalho de seus predecessores. Eles pintam e desenham diretamente sobre o trabalho anterior, sem se preocupar em liberar uma área ou encontrar uma superfície de pedra que não tenha sido desenhada." (p. 207)

(David Byrne, "Diários de bicicleta", tradução de Otávio Albuquerque, Anna Lim e Fabiana de Carvalho, Amarilys, 2010)