
in SARLO, Beatriz. Escritos sobre literatura argentina, 2007
livros e viagens; leituras e lugares
Brevíssimo romance com um livro
de poemas dentro, “O sol partido” (2014), do escritor baiano João Mendonça,
conta uma história de amizade e amadurecimento, composta pelos encontros e
desencontros de cinco rapazes numa Salvador ensolarada. O enredo carrega um
forte sentimento de comunhão juvenil que é rompido pela constatação, por parte
do narrador, do distanciamento das relações e da finitude dos verões
despreocupados e felizes. Ao contrário dos dois amigos que vão embora – um
emigrado para o gelado norte europeu (Dinamarca), o outro para as terras frias
ao sul (Argentina) –, o narrador se fixa em sua cidade calorosa, sem abandonar
jamais o terreno familiar de ruas e parques. Num gesto memorialístico, ele tenta
tirar uma lição de vida das separações quase sempre inevitáveis que o tempo
provoca.
"A partir daquele ponto pude entender o real sentido da expressão fim de mundo. Atravessar aquela fronteira entre o mundo real e aquela zona do crepúsculo era entrar em uma região apocalíptica onde as pessoas tinham sido substituídas por sombras. Tudo pelo caminho permanecia abandonado e quieto. A floresta invadia o asfalto e tornava-se cada vez mais difícil andar em alta velocidade. À beira da estrada, os vilarejos em ruínas, as choupanas sem teto serviam de viveiro para espécies vegetais. Dava dó ver casas com portas abertas e quintais vazios, barcos semi-submersos na água ferruginosa do lago ou enormes construções e complexos industriais largados ao acaso, espaços em branco na vida de alguém que passou muito tempo a construí-los." (ps. 195)
Em “Ocidente”, de Nilson Galvão, temos poesia praticada com afinco, cavada no cotidiano e cultivada em versos que acolhem fricções permanentes entre ideias, sensações e a voz que as escreve. São poemas sem divisões estróficas, como se, com essa opção, o poeta buscasse intensificar o efeito de suas associações bruscas de imagens, por meio de uma ligação icônica entre elas (procedimento já anunciado no texto de abertura, “Buñuel”, p. 3). Com uma espécie de gestualismo estilístico, que enfeixa fluência coloquial e leve experimentalismo, o poeta trafega entre episódios domésticos e referências cinematográficas e literárias (Cortázar; os personagens clássicos Bartleby, Quixote e Ulisses; Pessoa – que inspira “À beira do Tejo”, p. 12). Transparece ao longo da leitura uma concepção de poesia como evento que provoca um “furo no cotidiano” (p. 36), como em “Acidente doméstico” (p. 9) e “Milagres” (p. 38), dois dos melhores textos do pequeno volume em forma de envelope da coleção Cartas Bahianas. Alguns desses (e vários outros) textos de Galvão podem ser lidos no blog Blag.
"Nós percorremos enormes distâncias para contemplar as ruínas de antigas civilizações, mas onde estão as ruínas contemporâneas? Onde estão sendo criadas as ruínas no mundo de hoje? Onde ficam as antigas grandes cidades que agora estão sendo gradualmente abandonadas em uma lenta decadência, deixando sinais do que as futuras gerações irão escavar e encontrar daqui a mil anos?" (ps. 34-35)
ONDE ENCONTRAR:
Midialouca (R$ 3,00)