quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Montagem de sensações que esmiúça o caos discursivo

Epistolário e livro de viagens, Na capital sul-americana do porco light, de Catarina Lins (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2018) é composto por dez escritos que provocam movimentos de leitura em muitas direções, na medida em que sua poética intenta traçar linhas imaginárias entre certos objetos e delimitar território onde tudo entrará como parte do poema: “Meridiano: […] ligação […] encontro entre heterogêneos.” (p. 14). O poema é um navio que, ao encalhar em meio a detritos na corrente da linguagem, pode, justamente nesse impasse, encontrar o silêncio, o sentido: “[…] não havendo / calado / isto demarcava, sim, o silêncio / nos poemas endereçados / às geleiras” (p. 16). Catarina organiza seus textos com formas recolhidas: cartas, e-mails, perguntas, trechos de verbetes enciclopédicos, citações (identificadas ou não), sonhos, listas, lembranças, aproximando deserto e oceano, incêndio e baixas temperaturas, presença e ausência, o eu e o outro (“encontro intenso”, p.  22) e o eu consigo mesmo. Todos os textos do livro interpelam um interlocutor ou interlocutora, que varia de uma amiga ou do próprio eu do poema a um amor, à poeta Hilda Hilst, a alguém da família que é bem mais velho, a outro mais novo, ou, ainda, a outros indeterminados (o/a leitor/a?). Certa nostalgia derivada da falta de uma dimensão temporal mais densa é compensada pelos deslocamentos físicos reiterados e representada de maneira fragmentária, na taquicardia da comunicação instantânea contemporânea. Como pano de fundo ouve-se a evocação a) de uma cidade não especificada que “ainda está em guerra”, mas na qual “as casas […] // […] // são onde duas ou três coisas importantes / ainda acontecem” (p. 45) – cidade que talvez seja o local da escrita posterior, em poemas, da experiência estrangeira –, b) da cidade da infância (em que “crianças / […] brincavam ao redor do mundo / nos túneis, jardins, / nos monumentos da guerra” (p. 37) ou c) do turismo num centro de São Paulo com “acampamentos em volta” (p. 59); mas essas alusões a uma realidade por vezes incômoda são como vestígios de perturbações que se passam a certa distância, não somente no espaço mas também no tempo (a letra “H.” com prudência substitui a menção ao chamado “holocausto” da segunda grande guerra do século passado). É interessante observar como o uso das aspas, entre outros recursos presentes nesse livro, com frequência produz uma ironia relacionada com alguma ideia já enunciada num poema anterior: da “Arte” (sem aspas e em caixa alta, p. 9) para “a grande arte” (entre aspas e em caixa baixa, p. 60), da “História” (sem aspas e em caixa alta, p. 48) para uma “historicidade” (entre aspas, em caixa baixa e em itálico, p. 53). O estilo da poeta atinge resultado mais intenso e coeso em “O poema demora” ou no díptico “Para que servem as manhãs se não para isto?” e “Empédocles” (os dois últimos, ligados pela mesma reflexão sobre por que “no mundo dos sons, / […] manter a continuidade”, ps. 43-44 e 47) – nesses três textos, sua escritura opera um trabalho de montagem de sensações que, demiurgicamente, esmiúça o caos discursivo, “separando tudo: sonho, água, devaneio / loucura e olhos” (p. 49).

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Vazios do poder na “Democracia em vertigem” de Petra Costa




“Democracia em vertigem” (2019) é muito bem sucedido ao criar uma representação de um certo vazio de poder na República brasileira por meio da montagem de cenas de rua repletas de gente em protestos e manifestações contrapostas a planos interiores, lentos e solenes, em palácios presidenciais desertos em Brasília. Ao longo do filme, esse espaço de poder é ocupado sucessivamente pelos últimos três ou quatro representantes do principal cargo executivo, cada um deles mais ou menos próximos das aspirações populares profundas, numa narrativa que descreve o processo de decomposição de uma democracia por interesse das elites do Estado e das elites econômicas.

Os méritos e qualidades técnicos e artísticos do filme são inúmeros, e uma lista de elogios possíveis tornaria este texto muito extenso. Por isso, mesmo ciente de que nenhum documentário jamais será capaz de abranger na totalidade o fenômeno que retrata, quero ater estes comentários apenas a possíveis omissões que, por sua importância, a meu ver, parecem enfraquecer a tese central de “Democracia em vertigem”. São críticas que faço não em detrimento da obra, mas em prol do que ela tem de melhor: o encadeamento dos fatos na elucidação do caminho percorrido pelo país até aqui. Suponho que, para desenvolver plenamente seus argumentos, com fidelidade ainda maior aos eventos históricos, o filme de duas horas precisaria de mais uns 30 minutos de duração, de modo a incluir episódios, momentos, personagens e instituições não apresentados na tela.

Antes, uma observação quanto ao que me parece uma incorreção (política?). Minha primeira objeção a “Democracia em vertigem” é quanto às imagens de fundo utilizadas nas cenas da gravação do diálogo de Dilma-Lula (tomadas externas noturnas) e Temer-Joesley (tomadas externas do nascer do dia), numa imprecisão factual que levanta certa desconfiança quanto a seu intuito – na verdade, se trata mesmo de uma inversão, já que é de amplo conhecimento que a primeira conversa se deu em dia claro, num fim de manhã, e a segunda, já tarde da noite. Seria casual ou intencional essa opção narrativa?

Passo agora às omissões que me parecem mais importantes, seguindo a cronologia dos fatos históricos: 1) A eleição indireta de Temer como presidente, pelo Congresso, com características de conspiração, e a composição de seu governo junto à oposição derrotada nas eleições de 2014 merecia uma abordagem um pouco mais detalhada, por se relacionar diretamente ao tema central do filme: o encolhimento da participação popular e o aprofundamento de um processo de decomposição da democracia. 2) Não há no filme qualquer menção ou referência à atuação um tanto dissonante de Teori Zavascki no contexto da Lava Jato, nem à morte inesperada do ministro do Supremo Tribunal Federal. Aliás, dos grandes protagonistas do período, o STF e o Judiciário como um todo são bastante poupados de exposição em “Democracia em vertigem”: recordo apenas um primeiríssimo plano de Ricardo Lewandowski (na sessão final do impeachment, no Senado) e uma menção em off a Gilmar Mendes (no episódio da nomeação de Lula como ministro-chefe da Casa Civil). Uma maior presença do STF no filme, atuando como suporte ou contraponto (variando a depender do momento) aos outros poderes, seria um elemento fundamental para a riqueza documental da obra, esclarecendo a forma como o STF é aludido numa fala de Moro no Congresso, em que ele defende seu próprio trabalho pelo fato de ser “sufragado pelas altas instâncias” e sugere que questionar suas decisões como juiz seria questionar o próprio Judiciário. 3) Não há, no documentário, registro da intimidação (mais propriamente, ameaça) ao STF feita pelo comandante do Exército, general Villas Bôas em abril de 2018, com o assentimento tácito de Temer (que não repreendeu publicamente seu subordinado pela indevida ingerência política no processo do julgamento de Lula). Tal como o Judiciário, o Exército dos dias de hoje pouco aparece no filme, embora tenha gradualmente ocupado, ao longo dos anos que são acompanhados pela narrativa, um espaço cada vez maior na cena política, fenômeno no qual a intervenção de Villas Bôas foi um dos momentos culminantes. Por se tratar, neste caso, de um filme sobre a decomposição da democracia, que expõe tão bem o autoritarismo da ditadura civil-militar anterior, ter incluído esse episódio seria essencial para pintar o quadro completo de aparente ruptura em curso. 4) A elipse entre a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro também compromete, em parte, a força da tese do longa, ao não abordar as eleições de 2018 e as inúmeras anormalidades ocorridas durante a campanha (a proibição de entrevistas de Lula à imprensa, o atentado a Bolsonaro, a ausência do candidato vencedor dos debates mais importantes, o disparo em massa de notícias falsas). Ao omitir a figura de Haddad, “Democracia em vertigem” dá a entender uma continuidade natural entre a prisão de Lula e a vitória de Bolsonaro, contribuindo indiretamente (espero!) para consolidar como legítima a eleição deste como presidente e inserindo o atual estado de coisas numa falsa “normalidade” institucional – impressão que acaba por atenuar (ainda que de maneira muito sutil) a gravidade do próprio fenômeno que prentende documentar.

O filme termina com um plano sequência aéreo que parte do Congresso Nacional em direção ao centro de Brasília, numa tomada que espreita na direção oposta ao frame de encerramento de “Tropa de elite 2”, de José Padilha (que focaliza o palácio do Congresso do ponto de vista de quem está no centro da capital). Esse contraponto com uma obra bastante anterior (2010), que já discutia o tema da infiltração do crime organizado nas polícias do Rio de Janeiro e nos três poderes, estabelece uma discreta ligação de “Democracia em vertigem” com um dos principais problemas em pauta na fase Bolsonaro: a infiltração das milícias num aparente vazio de poder político que, com recorrência, domina o espaço público brasileiro – vazio que o filme de Petra Costa representa com habilidade nos já citados e insistentes travellings no interior da residência presidencial oficial desocupada, como a perguntar: Quem virá preencher esse espaço? Questão pertinente, na medida em que, em política, não existe tal vazio: sempre haverá alguém disposto a preencher o espaço e capaz de angariar apoio para tanto. As linhas que se entrecruzam no gramado da Esplanada representam o enorme xis da questão de um enigma nacional, mas também apontam caminhos a serem coletivamente traçados, percorridos e, se necessário, invadidos pela gente brasileira.

Wladimir Cazé 
20/06/2019
[texto publicado no jornal "A Gazeta", de Vitória/ES, em 29/06/2019]

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

"O assassino de porcos", de Luciano Lamberti


já está à venda nas lojas (física e virtual) da Editora Cousa esta obra do contista argentino Luciano Lamberti, que traduzimos a 4 mãos, eu e Rafael Dos Prazeres, mediante subsídio do Programa Sur de Apoio às Traduções do Ministério das Relações Exteriores da Argentina.

na likestore da Cousa, onde o livro pode ser adquirido: preço: R$ 38,00:

Abaixo, o texto da orelha do livro:

Em O assassino de porcos, Luciano Lamberti incorpora à sua narrativa ficcional aspectos dos costumes e da paisagem de Córdoba, refletindo uma experiência localista que se mescla a memórias de infância nos anos 80, arroubos juvenis nos anos 90, referências pop e humor. Os protagonistas destes dez relatos selvagens são seres solitários ou desajustados marcados pela instabilidade, pela indecisão, por expectativas, descobertas e frustrações em cidadezinhas da província argentina que é a segunda mais populosa no país. 

Povoados de figuras que transitam de um texto a outro e de imagens recorrentes funcionando como discretos leitmotive, os episódios e anedotas de O assassino de porcos compõem um mosaico de histórias e exibem a face brutal do bicho-homem entre animais domésticos e pragas bíblicas, num mundo envolto por ameaças silenciosas e iminentes. Justapondo cenas em aparência banais, Lamberti busca, como diz a personagem de um dos contos, “escrever sobre uma experiência que pudesse iluminar as outras, como uma clareira no bosque”.

O assassino de porcos vem recebendo inúmeras críticas elogiosas, a exemplo do juízo entusiástico emitido pelo crítico Juan Terranova quando a obra apareceu, em 2010: “O assassino de porcos é o melhor livro de contos dos últimos trinta anos, não só na Argentina, mas em toda a América Latina”. Para o escritor Alejandro Rubio, a obra expõe una visão da Argentina do século XXI “em chave pós-apocalíptica”. 

Luciano Lamberti é um autor em trajetória ascendente no panorama argentino, com obras publicadas na Itália e na Espanha. Representa, de maneira magistral, a nova literatura produzida em Córdoba, que vive neste início de século um momento de grande vivacidade, com a atuação de diversas editoras locais e de escritores como Cuqui, Federico Falco e Pablo Natale. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"¿Cómo se convierte alguien en escritor - o es convertido en escritor -? No es una vocación, a quien se le ocurre, no es una decisión tampoco, se parece más bien a una manía, un hábito, una adicción, si uno deja de hacerlo, se siente peor, pero tener que hacerlo es ridículo, y al final se convierte en un modo de vivir (como cualquier otro)." (PIGLIA, Ricardo. Los libros de mi vida. Páginas de una autobiografía, futurap. 10)





sábado, 31 de dezembro de 2016

"São Paulo, Canaã dos paus-de-arara, a Xangrilá dos bóias-frias, bóia de salvação dos retirantes cubo-famélicos de Portinari" (p. 37) "São Paulo: que representaria para aqueles universitários da Boa-Terra, com certo verniz sofisticado, assistemáticos [...]? Uma porrada. Foi um soco de vida urbana capitalista moderna selva selvagem do Brasil." (p. 37) "MUNDO-ABRIGO é um jardim de veredas que se bifurcam. Fissura. Delírio ambulatório, MITOS VADIOS, o desejo errante" (p. 78) "São Cristóvão, o protetor dos viajantes, dos que transitam, dos que estão possuídos, dos que mudam de pele, dos mutantes" (p. 86)


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"estratégia de vida: mobilidade no EIXO rio são paulo bahia. viagens dentro e fora da BR." (p. 45) "NEW YORK - isto deve parecer provinciano mas não há outra forma de expressão: ir ao exterior." (p. 48) "Poeira do mundo. sem pouso. outros sertões. ontheroad." (p. 61) "nasci no interior do Brasil - minha dor é minha dívida de dinheiro - toda minha ação são peças jurídicas advogando meu direito à alimentação. campeio. batalho." (p. 80) "Bahia - paraíso pro inferno sem sal sem sol são paulistano." (p. 83) "dos cafundós da caatinga a lúcifer das cidades" (p. 165) "e refazer o périplo no sentido inverso" (p. 165)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016


"A nadie le interesa ni la literatura, ni la historia, ni nada que tenga que ver con el pensamiento o con las humanidades [...]. Y todavía hay despistados que llaman 'nación' a este sitio, un sinsentido, una estupidez que daría risa si no fuera por lo grotesco: cómo pueden llamar 'nación' a un sitio poblado por individuos a los que no les interesa tener historia ni saber nada de su historia, un sitio poblado por individuos cuyo único interés es imitar a los militares y ser administradores de empresas [...]"


Horacio Castellanos Moya, "Asco"

segunda-feira, 25 de julho de 2016


"Teias de aranha. [...] Teia de aranha. [...] Curioso como se assemelha aos desenhos de certas mandalas. Espaço mítico. Homem também cria espaços míticos, por que não aranha? Cidades, por exemplo. A princípio, sonho de homem, lugar onde pôr para fora deuses e demônios, mas depois cidade física prende, homem fica como inseto em teia de aranha." (p. 109)

Mario Levrero, "Deixa comigo"
{tradução Joca Reiners Terron}

terça-feira, 19 de julho de 2016


“ando numa boa e na vadiagem mais uma vez & nada tenho a fazer senão perambular” (p. 14)

“tudo é um grande e estranho sonho” (p. 52)

“A via férrea se revelava por inteiro, cada vez mais vasta e vasta, [...] muito além dos limites do mundo, e também perfura um buraco profundo na mente de um homem” (p. 91-92)

“o espectro e o horror de um homem que outrora foi um bebê rosado e agora é um fantasma aterrorizante na enlouquecedora noite surrealista das cidades, rostos esquecidos, dinheiro jogado fora, comida jogada fora, bebidas, bebidas, bebidas, as milhares de conversas ruminadas na obscuridade.” (p. 114)

“Na América houve sempre [...] uma ideia especial e definida da liberdade que significa andar a pé [...] se deslocando de cidade em cidade, de estado em estado, em direção à eventual sina dos becos periféricos das grandes cidades quando seus pés entregam os pontos.” (p. 208)

KEROUAC, Jack. Viajante solitário. L&PM, 2006.
[tradução de Eduardo Bueno]

quinta-feira, 14 de julho de 2016


“[...] pulsação rítmica evocando os ritmos próprios da vida, a metáfora do batimento primordial do coração e do sexo, o beat essencial. [...] forma livre, improvisada, improvável [...]” (p. 53)

“Paixão pela palavra, pela imagem, pela prosódia musical, paixão pelo sexo, sacralização do instante presente, errância no esoterismo da tradição que é a terra amassada do passado, de tudo isso a geração beat está carregada.” (p. 87)

“[...] a dura lei da viagem tal como tinha imaginado: despesa mínima, recurso à carona ao acaso, partilha das horas com desconhecidos, mas, sobretudo, liberdade e disponibilidade em busca da pulsação viva da América.” (p. 105)

“[...] suas viagens reais não são senão coleções de miniacontecimentos e manifestações de pouco risco. Não têm a envergadura das que serão empreendidas por Burroughs e Ginsberg, que aliarão deslocamento geográfico, sedentarização longe dos Estados Unidos e experiência interior.” (p. 115)

“De início é sobre os mapas que ele começa, é através dos relatos que ele viaja.” (p. 117)


BUIN, Yves. Kerouac. L&PM, 2007.
[tradução de Rejane Janowitzer]

quinta-feira, 7 de julho de 2016


“por sonhos se entenda o que se enxerga durante o sono – e não o que se deseja nos devaneios diurnos.” (p. 69)
“Tão vastos e intemporais, os acontecimentos brotam de algum centro mais intenso, formando vagos pontos distantes, só para serem encontrados de novo, quando os núcleos e os universos se deslocam para outros sonhos.” (p. 73-74)
“que coisa mais estranha a realidade do mundo desolado e infinito, que não tem destino, significado, nem centro” (p. 77)
“A América [...] é em si mesma um sonho” (p. 129)
“O centro do interesse do sonho só pode ser recapitulado uma vez e por isso também só dá para ser transcrito em seguida [...] porque, ao lembrar e anotar mentalmente, o cérebro logo entorpece e não é mais possível agilizá-lo” (p. 133)
“tudo, tudo irreal, sonhos” (p. 137)
“num cérebro momentaneamente em repouso indigente” (p. 139)
“por algum motivo [...], a coisa toda não consegue chegar em detalhe à minha percepção” (p. 141)
“os sonhos mais fantásticos, e complexos, são irrecuperáveis para o cérebro comum que acorda de manhã” (p. 168)
“O inseto provavelmente era eu.” (p. 168)
“AO ANOTAR OS SONHOS, REPARE NA MANEIRA COMO A CABEÇA SONHADORA INVENTA” (p. 175)  
[tradução de Milton Persson]

quarta-feira, 29 de junho de 2016

leitura de "Microafetos" por Ronald Augusto


"o exoesqueleto da métrica infusa no inseto áporo do verso
jamais livre jamais abandonado ao capricho da mera
rixa com o caro virtuosismo pós-cabralino"


[trecho do poeta e crítico Ronald Augusto em suas anotações de leitura de MICROAFETOS, cuja íntegra pode ser lida em se clicando aaqquuii.]

segunda-feira, 27 de junho de 2016

entrevista

Karine "Thompson" Alves é uma ávida leitora de 18 anos que mora em Piúma (ES). Em seu Blog da Kah ela vem entrevistando alguns escritores com cujos livros teve contato. Aqui estão as respostas que enviei.

domingo, 5 de junho de 2016

POESIA CONTRA O GOLPE


pra baixar grátis [em PDF]: https://drive.google.com/file/d/0B7PowsNW2tItaXNoUG5TYldlU0U/view?pref=2&pli=1

antologia "OSSO DE ESCREVER: literatura em tempo de barbárie", com textos de Caê Guimarães, Aline Dias, Lucas Dos Passos, Sarah Vervloet, Barbara Depiantti, Janio Silva, Marília Carreiro, Orlando Lopes, Rodrigo Caldeira, Saskia Sa, Wagner Silva Gomes e Wladimir Cazé.
Essa é uma ação do movimento Cultura sem temer – ES. Artistas e produtores culturais, poetas e escritores, contra o autointitulado "governo interino” e o estado de exceção presidido por Michel Temer.

‪#‎foraTemer‬ ‪#‎ocupaMinC‬
‪#‎culturasemtemer‬ #foratemer #ocupaminc ‪#‎casinhadaresistencia‬

Link pra baixar "OSSO DE ESCREVER": https://drive.google.com/file/d/0B7PowsNW2tItaXNoUG5TYldlU0U/view?pref=2&pli=1

quinta-feira, 2 de junho de 2016


E publico mais um artigo acadêmico, novamente em parceria com minha orientadora no mestrado Maria Mirtis Caser, desta vez na “CONTEXTO”, revista do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). A edição nº 29, referente a 2016-1 (http://www.periodicos.ufes.br/contexto/issue/view/639), traz um dossiê sobre “Dom Quixote”, a obra-prima de Cervantes, com artigos de pesquisadores brasileiros e especialistas estrangeiros – Howard Mancing (EUA) e Lola Esteva de Llobet (Espanha). Nosso texto se intitula “‘Del donoso y grande escrutinio’: crítica literária e Inquisição em um capítulo do Quijote (I, 6)” e analisa o diálogo entre o cura e o barbeiro da aldeia a respeito das 23 obras literárias (livros de cavalaria, epopeias e cancioneiros e novelas pastoris) citadas na cena da “perícia” feita por eles na biblioteca de Alonso Quijano, e cuja leitura o levara a perder o juízo e tornar-se o Cavaleiro da Triste Figura.

Palavras-chave: Literatura maneirista. Cervantes. Quixote. Crítica literária. Inquisição espanhola.

Link para a “CONTEXTO” nº 29: http://www.periodicos.ufes.br/contexto/issue/view/639

Link direto pra nosso artigo: http://www.periodicos.ufes.br/contexto/article/view/13319

terça-feira, 24 de maio de 2016

resenha de "Microafetos", por Roberto Amaral



"À vera, o efeito que a leitura desse breve bestiário poético me causou foi o drolático. Sim, pilhei-me rindo por diversas vezes dos versos que compõem essa micropoética cazeana."

[trecho da micro-resenha de MICROAFETOS assinada pelo professor e escritor Roberto Amaral (
UFVJM), que pode ser lida na íntregra em se clicando aaqquuii.]

domingo, 15 de maio de 2016


"First you take a drink,
then the drink takes a drink,
then the drink takes you
."
F. Scott Fitzgerald

Hoje eu vou virar drink, junto com Sarah Vervloet,Rodrigo CaldeiraAnderson BardotSergio Luiz Blank, Tiago Zanoli, Saskia SaIzabela Orlandi e vários outros escritores do Espírito Santo. Venha nos beber no Hostel Guanaaní Hostel, das 15h às 21h. O Guanaaní fica no centro de Vitória, na Rua Coronel Monjardim, 49.

terça-feira, 10 de maio de 2016


Saiu - para download gratuito - o livro Quebras – Uma viagem literária pelo Brasil, organizado por Marcelino Freire e Jorge Ialanji Filholini, lançado em novembro de 2015 e contemplado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2014-2015.

O livro resulta do projeto que visitou 15 capitais brasileiras em busca de escritores e artistas fora do eixão Rio-São Paulo-Porto Alegre-Curitiba-Salvador-Recife-Belo Horizonte-Fortaleza. As cidades visitadas pelo Quebras foram capitais com presença relativamente menor no panorama literário nacional: Teresina, Belém, Vitória, Rio Branco, Maceió, Macapá, Manaus, Goiânia, São Luís, Cuiabá, Campo Grande, Porto Velho, Boa Vista, Aracaju e Palmas.

O livro contém crônicas de Marcelino e Jorge sobre suas descobertas e memórias durante a aventura, além de uma antologia com textos de alguns escritores que a dupla conheceu pelo caminho. Participo, na página 26, com "O poema inacabado". Também estão no livro Antônio Moura, Bruno Azevêdo, Demétrios Galvão, Diego Moraes, Douglas Diegues e Waldo Motta, entre outros nomes.

Link para o livro: https://livreopiniaoportal.files.wordpress.com/2016/05/quebras-uma-viagem-literc3a1ria-pelo-brasil.pdf

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Saulo Ribeiro recomenda MICROAFETOS

nesse bloco do programa "Espaço 2" da TVE-ES, o escritor e editor Saulo Ribeiro fala sobre meu livro MICROAFETOS e sobre o romance "Chorume", de Tiago Zanoli. em seguida vem uma reportagem sobre o lançamento das obras literárias editadas pela Secult-ES, ocorrido no dia 19 de abril

terça-feira, 26 de abril de 2016

NOVO SONHO


O sonho me pareceu longo mas foi bastante repetitivo, podendo por isso ser descrito em poucas linhas. Estou na frente do computador, cuidando de apagar uma por uma todas as postagens do meu mural que tenham a ver com a crise política e deixando no ar apenas aquelas relacionadas com literatura, música, tradução e as outras duas ou três áreas do saber que me interessam. Passam-se muitos minutos sem qualquer outro gesto meu além do repetido movimento de apagar as postagens sobre política. No final, fica uma timeline tranquila, agradável, sem inquietações.

24/04/2016

segunda-feira, 11 de abril de 2016

"Aqui São Paulo", de Wanda Figueiredo (1971)


"em são paulo você consegue vender até livro até livro! ganhei dinheiro vendendo livro peguei uma pasta e fui de porta em porta" [p. 25]

"em são paulo naquela época nem automóvel existia as ruas não eram calçadas o viaduto do chá era de madeira pagava-se 2 vinténs para atravessar ah! são paulo antigo tem suas coisas interessantes! para se ir à praça da república levava-se um tempo enorme! era o local das touradas chamava-se largo dos curros curros era um lugar onde se transacionava gado a praça da república praticamente não existia" [p. 32]

"a gente nunca sabe quando são paulo entrou em vigor não tem história ela está sempre brincando de começar brincando de tradição [...] ela é cidade nova e velha não se define" [p. 94]

"o paulista tem mão de ferro sem luva de veludo ele tem a miséria que atrofia os órgãos todos os órgãos eu diria ele mede as ruas a pé" [p. 94]

"são paulo é um campo de batalha" [p. 95]

"há uma ligação entre o cimento e a gente" [p. 96]

"são paulo para mim não é um inferno é um misto de tudo um inferno tem seus paraísos" [p. 128]

"melhor do que ficar parada vendo a vida passar eu prefiro o rodamoinho em vez de ser espectadora vendo televisão no interior como um filme a vida dos outros ver os outros vivendo prefiro entrar na loucura toda" [p. 150]

"aridez de são paulo" [p. 167]

"uma psicóloga disse que essas manias que tenho de mato de morar no sertão é tudo fuga" [p. 186]

"grande província" [p. 202]

"tenho a impressão que o rio anhangabaú soterrado dá seiva para que são paulo cresça e são paulo ainda está em formação não deu ainda flores não está formada" [p. 219]

"livro não é cidade" [p. 230]

"o mundo é dos que caminham" [p. 230]

PESADELO


Este sonho só pode ser considerado um pesadelo, dado o número de vezes que a imagem do rosto de Michel Temer nele aparece. Temer já é o presidente da república, e lá estou eu, comparecendo a seu gabinete, pela primeira vez, para assumir a função de assessor de imprensa da presidência. Temer me recebe de maneira fria e formal, e junto com seus assessores dá início a uma espécie de ritual que naquele momento entendo ser um procedimento preliminar à minha iniciação no serviço. O ritual consiste no seguinte: sobre uma mesa retangular, coberta apenas por uma toalha de mesa, os assessores de Temer cerimonialmente começam a posicionar três objetos diferentes. Infelizmente não me recordo de quais eram os outros dois objetos [enquanto sonhava, quis me levantar para anotar esses detalhes, porém o caráter de pesadelo do sonho me manteve inerte na cama], mas com toda certeza um deles era uma pequena urna de cor cinza-azulada. De imediato eu [que já analisava o sonho dentro do sonho, enquanto sonhava] observo que não se trata de uma urna eleitoral, daquelas dos tempos pré-urna eletrônica, nas quais através de uma fresta se inseria o papel com o voto, mas de uma urna cinerária, das que são usadas para guardar as cinzas de um corpo cremado. Desse modo, meu ritual de ingresso no novo emprego tem um certo aspecto funerário. Quando os assessores enfim colocam a urna e os outros objetos na mesa, em posições rigorosamente equidistantes, Temer se volta para mim e faz o único gesto minimamente simpático de todo o sonho: pisca um olho e pergunta: “Foto?” Com isso entendo que ele me convida a posar, a seu lado, diante da mesa, para documentarmos o acontecimento. Mas não é isso o que Temer deseja: um pouco impaciente, ele gesticula para que todos se afastem e, segurando a câmera, encarrega-se ele próprio de fotografar a mesa com a urna e os outros dois objetos. Nesse momento eu percebo que para Temer as pessoas não têm a menor importância. Acordo.

Wladimir Cazé
10/04/2016

domingo, 10 de abril de 2016

OUTRO SONHO


Esse novo sonho foi mais confuso que o anterior, dele guardei menos detalhes. O cenário agora era o palácio da presidência do Paraguai. Ao chegarmos, eu e B. encontrávamos uma das entradas em péssimo estado de conservação: lixo, excrementos, restos de comida, maus odores, entulho, insetos, escuridão. Sabíamos que havia outras entradas no palácio, mas aquela era a que nos interessava, porque a informação turística que tínhamos era de que ela seria a “entrada da cultura”, local onde supostamente elementos da arte do país poderiam ser apreciados. Daí nossa enorme decepção ao encontrar o que deveria ser um símbolo da cultura do país em tal estado de descaso e abandono. Mesmo assim, insistimos em entrar por ali, com a ideia de tentar conversar com o presidente da república e convencê-lo a editar um “Ato constitucional” voltado à recuperação daquela parte do prédio e, por consequência, da cultura nacional (delírios de turista que já chega querendo interferir na vida local). Nisso estamos quando, de repente, “Lá vem o presidente”, vemos que ele se aproxima, mas nesse ponto eu desperto ou o sonho termina.

Wladimir Cazé
08/04/2016

sexta-feira, 8 de abril de 2016

UM SONHO

Tudo começa com uma frase lida numa revista: “Em 1985 a Rede Globo tentou dar um golpe e impedir a posse de Tancredo Neves”.
[Eu nunca soube antes de nenhuma informação parecida, mas ela não é inverossímil; se considerarmos que Tancredo realmente não foi empossado presidente, o suposto plano pode de fato ter se realizado.]
Depois da frase na revista, a cena do sonho acontece num edifício da Rede Globo, para onde um político ou jurista importante, aliado de Tancredo [se não o próprio Tancredo], é chamado para uma reunião com o poderoso Marinho de plantão, para discutir a situação política nacional. O político [ou jurista, ou Tancredo] vai à reunião disposto a resistir e expor a firme determinação do presidente eleito de assumir o governo a qualquer custo. Acompanhando o convidado, estão presentes outros políticos, alguns jornalistas (da Globo e de empresas concorrentes), entre eles – ainda como estudantes de jornalismo – eu e alguns colegas (reconheço vagamente Carlos Rocha).
A reunião acontece numa sala do prédio similar a um restaurante de luxo. Quando chegamos, o Marinho já está sentado numa poltrona, sozinho, fumando um charuto. Ele cumprimenta a todos com ar de superioridade e certa indiferença. Sente-se alguma tensão no ambiente. Querendo dar ao evento um tom sofisticado, o Marinho estala os dedos e pergunta a um de seus serviçais: “Fulano, nós temos aí a Carmen de Bizéti?”, e ordena: “Se tivermos, põe ela pra tocar”. A pronúncia equivocada do nome de Bizet provoca uma onda de hilaridade entre os políticos e jornalistas, mas todos seguram o riso temendo quebrar a solenidade da reunião. Porém uma mulher negra, representante do movimento negro, não se contém: “Desculpe, senhor. Nós ficamos muito tempo calados, mas agora eu não vou deixar de falar. O nome do compositor que o senhor acabou de citar não é Bizéti, é Bizet”. O Marinho não parece se abalar ao ter sua ignorância revelada em público e, com o mesmo ar de superioridade, passa à escolha dos pratos e das bebidas, novamente pronunciando palavras francesas duma maneira ridiculamente aportuguesada. O político [“Tancredo”] não dá atenção a isso, decidido a logo dar início à reunião. Mas o Marinho faz uma manobra que não entendo muito bem, troca umas poucas palavras em privado com “Tancredo” e dá a reunião por encerrada em dois minutos, antes mesmo que as bebidas e comidas cheguem à mesa, com isso de algum modo humilhando a todos os presentes, que são dispensados sumariamente.
Eu e meus colegas estudantes de jornalismo entramos no elevador para ir embora, e comentamos com indignação o que acaba de acontecer. “Um absurdo. Um idiota.” “Cuidado com o que fala aqui dentro, podemos estar sendo gravados.” “Não dá, pessoal. Temos que dar um jeito de entrar nessa profissão sem termos que trabalhar para gente assim.”
Com esse diálogo o sonho termina.
Wladimir Cazé
3 de março de 2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

mais um artigo publicado, agora em (Re)Visões do Fantástico: do centro às margens; caminhos cruzados (anais do II Congresso Internacional Vertentes do Insólito Ficcional, realizado em 2014 na UERJ). o trabalho se intitula "De máscaras e traduções: comentários a uma tradução do conto "La máscara", de Emilia Pardo Bazán" e foi escrito a 4 mãos com minha querida orientadora Maria Mirtis Casero PDF do livro está disponível para acesso e download grátis em:http://www.dialogarts.uerj.br/…/arquivos_tfc…/anais_2014.pdf. A publicação traz diversos estudos sobre autores como Clarice Lispector, Shakespeare, Murilo Rubião, Eça de Queirós, Aleilton Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna, Gilberto Freyre, Bioy Casares, Guimarães Rosa, Lourenço Mutarelli e Antonin Artaud, entre outros.

nosso artigo está entre as páginas 750 e 765.
título do artigo: "De máscaras e traduções: comentários a uma tradução do conto "La máscara"
palavras-chave: Emilia Pardo Bazán. Conto fantástico. Tradução literária. Tradução comentada.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

No ar, nova edição da revista "Versalete", UFPR (Número 5, jul.- dez. 2015), com artigos sobre temas diversos nas áreas de Linguística, Literatura e Tradução. Entre os autores abordados nos estudos, Kafka, Pessoa, Chico Buarque, Shakespeare, Rosa e Valter Hugo Mãe.
Participo com o trabalho "Atravessando afronteira: tradução de um poema do argentino Marcelo Silva
", exercício de prática de/reflexão sobre tradução poética. meu texto está entre as páginas 365 e 382 deste PDF.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

"Todos formavam um único grupo - os supostos partidos da direita e da esquerda" (p. 54)

"é típico dessa espécie de tribunal que se condene não só quem é inocente, mas também quem não sabe de nada" (p. 58)

"contra esse tribunal não é possível se defender, é preciso fazer uma confissão" (p. 120)

"A defesa, na verdade, não é realmente admitida pela lei, apenas tolerada" (p. 127)

"as relações pessoais do advogado: é nelas que repousa o principal valor da defesa" (p. 128)

"é totalmente remota a ideia de querer introduzir ou impor, junto ao tribunal, qualquer melhora (...). A única coisa acertada é se conformar com as condições existentes" (p. 132)

"no final emerge, de alguma parte onde originariamente não existia nada, uma grande culpa" (p. 160)

"A sentença não vem de uma vez, é o processo que se converte aos poucos em veredicto" (p. 228)

"A lógica, na verdade, é inabalável, mas ela não resiste a uma pessoa que quer viver" (p. 246)

[tradução de Modesto Carone]


sábado, 3 de outubro de 2015

meu artigo "Tradução comentada do conto 'La resucitada', de Emilia Pardo Bazán" foi publicado na revista HISPANISTA – Revista electrónica de los Hispanistas de Brasil - Vol XVI – nº 62 – Julio – Agosto – Septiembre, 2015. Cortázar e Góngora estão entre os autores abordados nos demais artigos da edição

link pra revista: http://www.hispanista.com.br/Rostos/rosto62.htm

link pro meu artigo: http://www.hispanista.com.br/artigos%20autores%20e%20pdfs/498.pdf

meu agradecimento a Maria Mirtis Caser pela orientação

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

sarau de música e poesia no centro de Vitória (ES)

matéria do programa "Ponto Cult" (TV Tribuna) sobre o projeto Sarel Autoral, que ocorre mensalmente no centro de Vitória (ES). o vídeo foi gravado na noite em que dividimos o palco eu e o músico Yuri Guijansque

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Bloomsday em Vitória (ES)


amanhã, 16/06/2015
Bloomsday 

com Caetano W. Galindo, tradutor de "Ulysses", de James Joyce
no SESC Glória
centro de Vitória, ES

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Bloomsday em Vitória (ES)

próxima terça-feira, 16/06/2015
Bloomsday 

com Caetano W. Galindo, tradutor de "Ulysses", de James Joyce
no SESC Glória
centro de Vitória, ES


terça-feira, 12 de maio de 2015

GOURMETIZAÇÃO DO MOFO

tenho pensado sobre como o processo de mercantilização/canonização de um autor passa pela estética das capas das reedições de seus livros. a pergunta é: o que leva a editora nova fronteira a estampar uma foto de manhattan na edição de 2015 de "morangos mofados"? isso é nonsense, visto que a única referência explícita a nova york na obra está num rápido inventário geracional que passa por outras duas capitais mundiais: “Bolsas na Sorbonne, chás com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun, little darling, 70 em Nova York dançando disco-music no Studio 54 (...)". então por que nova york na capa e não paris ou londres? sim, pode ser que, indiretamente, nova york esteja pairando, em alguns contos, nas citações ocasionais à morte de Lennon no Central Park (que para Heloísa Buarque de Hollanda "parece ser o tema do livro"). mas objetivamente, as narrativas se passam entre rio de janeiro, são paulo e porto alegre. a título de comparação, na capa da primeira edição existe, no plano do fundo, um paredão de arranha-céus que pode representar qualquer grande metrópole, enquanto morangos e latas de lixo ocupam o primeiro plano. em 2015, ao contrário, a associação da imagem com uma cidade específica é inequívoca e imediata (mesmo que bastante arbitrária, com relação ao conteúdo do livro), e o morango se torna uma textura asséptica (na parte superior da imagem).


sábado, 25 de abril de 2015

a partir do 8º minuto do vídeo, um reclame-resenha do livro "As aventuras de cavaloDada em + realidades q canais de TV", de Reuben da Cunha Rocha


O Magazine é um programa de cultura e entretenimento da Imagem TV ES, apresentado por Luana Colnago Bressiane





terça-feira, 7 de abril de 2015



aos 8min20s do video, uma palinha sobre "Inventário dos olhos", estreia do poeta Rodrigo Caldeira (Diamantina, 1980) 

O Magazine é um programa de cultura e entretenimento da Imagem TV, apresentado por Luana Colnago Bressiane


domingo, 5 de abril de 2015

"(...) tudo é matéria de poesia, uma vez que traga as condições do belo ou os elementos de que ele se compõe."
"(...) uma opinião, que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local (...)"
" O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço."
"Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum."
Machado de Assis"Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade"
24/03/1873





"es nueva y arbitraria la idea de que los escritores deben buscar temas de sus países"
"nuestra tradición es toda la cultura occidental"
"podemos manejar todos los temas europeos, manejarlos sin supersticiones, con una irreverencia que puede tener, y ya tiene, consecuencias afortunadas"
"nuestro patrimonio es el universo"

Jorge Luís Borges 
"El escritor argentino y la tradicción"
1932 ?


sexta-feira, 20 de março de 2015


aos 11 minutos do video, uma palinha desajeitada sobre Manoel de Barros a pretexto do livro "Encontros", da Azougue Editorial 


O Magazine é um programa de cultura e entretenimento da Imagem TV, apresentado por Luana Colnago Bressiane

sábado, 7 de fevereiro de 2015

"(...) é preciso deixar absolutamente claro na mente do público que a tradição da arte está com os artistas e que, embora os artistas nem sempre pratiquem violações dos limites da decência, a mente do público não tem o direito de concluir que eles não arroguem para si a liberdade de fazê-lo, se quiserem." (p. 62)

"A modalidade de cristianismo denominada catolicismo pareceu interceptar-lhe o caminho e por isso ele a removeu. Fora criado na crença da supremacia romana e, para ele, deixar de ser católico significava deixar de ser cristão." (p. 118)

"A vida de um errante lhe parecia bem menos ignóbil que a vida de alguém que aceitara a tirania do medíocre pois o custo de ser excepcional era demasiadamente elevado. (...) Ele sentia vividamente os perigos insidiosos que se disfarçam de extravagâncias mas tinha convicção também de que o mero cumprimento dos deveres, nem compreendidos nem agradáveis, era bem mais perigoso e bem menos satisfatório." (p. 145)

"(...) quanto à tentação que Satanás teve permissão de acenar diante dos olhos de Jesus, na realidade, trata-se da tentação mais ineficaz que se pode oferecer a qualquer homem de talento." (p. 179)

tradução de José Roberto O'Shea

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

"O amor (...) pode-se dizer que é um duelo (...)" (p. 60)

"(...) as orelhas da gente andam já tão entupidas que só à força de muita retórica se pode meter por elas um sopro de verdade." (p. 94)

"O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio." (p. 116)

"A morte é uma hipótese (...), talvez uma lenda." (p. 139)

"O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade que estava, ou parecia estar escondida." (p. 152)

sábado, 29 de novembro de 2014

Uma voz de desencanto nos pampas


A maior parte da obra do escritor e intelectual argentino Ezequiel Martínez Estrada (1895-1964) foi dedicada a investigar a formação sócio-cultural e os problemas históricos de seu país e da América de língua espanhola. Autor de dezenas de livros escritos entre as décadas de 1920 e 1960, incluindo poesia, conto, teatro e crítica literária, ele notabilizou-se sobretudo pelo ensaio, gênero em que é considerado um dos nomes mais importantes na Argentina, em especial com “Radiografía de la pampa” (“Radiografia do pampa”, sem tradução no Brasil), de 1933, seu trabalho mais lembrado e estudado.

No ano em que em que se completam 50 anos de sua morte – ocorrida em 4 de novembro de 1964 –, a análise que Martínez Estrada desenvolveu a respeito das raízes da perpétua crise argentina volta a ser discutida. Em outubro, a editora Sudamericana lançou a biografia “La amargura metódica – Vida y obra de Ezequiel Martínez Estrada”, de Christian Ferrer, resultado de vários anos de pesquisa. Na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires organizou-se em 4 de novembro uma homenagem com debate entre especialistas e apresentação teatral de trechos da obra do escritor.

Martínez Estrada nasceu em San José de la Esquina, província de Santa Fe, em 1895. Com a separação dos pais e a desagregação familiar, ele se viu, aos 15 anos, impedido de prosseguir os estudos secundários. Nessa idade instala-se em Buenos Aires, ingressa no serviço público (no Correio Central, onde trabalhou até aposentar-se) e inicia sua formação de intelectual autodidata, aprofundada ao tornar-se professor de literatura do Colégio Nacional (1923). Não pertencia a grupos literários, embora eventualmente colaborasse com a revista “Sur”, de Victoria Ocampo.

Contestador, defendia posições anti-imperialistas, mas visitou os Estados Unidos (em 1942, a convite do Departamento de Estado), onde admirou alguns aspectos do país, e a União Soviética (em 1957), tendo disparado alfinetadas contra o sistema comunista. Seus escritos e sua atuação foram marcados por forte viés político, em particular o combate ao peronismo e aos recorrentes golpes militares argentinos e uma breve e intensa adesão ao governo revolucionário cubano, entre 1960 e 1962.

Radiografía de la pampa”, obra capital de Martínez Estrada, é um longo ensaio de interpretação nacional escrito num momento traumático da história argentina: o golpe militar de 1930, que derrubou o presidente eleito Yrigoyen e empossou o general Uriburu. Naquele momento já um poeta reconhecido e premiado, Martínez Estrada é tomado pela indignação política e dá por encerrada sua “adolescência literária”: abandona a poesia e volta-se para o ensaio, como parte de um esforço de compreensão da formação do país e de seus problemas na modernidade.

Nesse contexto, “Radiografía” pertence à leva de ensaios crítico-culturais que marcaram as primeiras décadas do século XX em diversos países da América Latina: no Brasil, com Gilberto Freyre e Sergio Buarque; no México, com Alfonso Reyes e Samuel Ramos; no Peru, com Haya de La Torre, entre outros. Sobre “Radiografía”, escreve Leo Pollmann que, no livro, o “pampa é (...) uma metonímia da Argentina, porque a análise, a radiografia, não se limita ao interior e aos pampas: seu assunto é a Argentina inteira com suas estruturas pampeanas que, segundo Martínez Estrada, abrangem também Buenos Aires”.

No referido ensaio, Martínez Estrada retoma a dicotomia entre civilização e barbárie estabelecida por Domingos Sarmiento (1811-1888) para caracterizar a formação argentina: a tensão entre um país considerado “civilizado”, “europeu” (Buenos Aires), e uma vasta amplidão selvagem, quase desabitada (o pampa ou “desierto”). Com a independência, Buenos Aires assume o papel hegemônico antes ocupado pela Espanha com relação ao território: “Buenos Aires de um lado e nada do outro”. Mas, ao contrário de Sarmiento, Martínez Estrada não vê a possibilidade de progresso, pois a metrópole não passa de uma “grande aldeia”: a luta do homem contra as adversidades naturais teria resultado numa vitória apenas aparente da capital sobre o pampa, e as estruturas psicológicas e sociais do deserto continuavam a incidir sobre a estrutura urbana.

Em um estilo vigoroso, poético e filosófico – saudado por Jorge Luis Borges como de uma “eficácia mortal” –, “Radiografia” analisa a paisagem, a ocupação do território e os tipos humanos (o índio, “gaucho”, o “compadre”, o europeu recém-emigrado, o homem anônimo da metrópole portenha), sempre de uma perspectiva crítica e desencantada. Para Martínez Estrada, a Argentina (e por extensão, a América) é resultado de um erro, agravado e multiplicado pela história posterior. Recorrendo à psicanálise freudiana como método de compreensão das estruturas fundamentais da nação, ele identifica nas origens do país uma experiência traumática que condicionou todo o seu desenvolvimento: a violência do europeu contra a mulher índia teria produzido a psicologia do filho humilhado, uma atitude reativa frente ao passado e à sociedade em geral. “As uniões casuais do invasor com a mulher subjugada deixavam uma consequência irremediável no mestiço, que, chegada sua hora, se voltaria contra o passado e a sociedade (...). Os filhos do concubinato seguiam os costumes de seus pais, mas no fundo de suas consciências não estavam satisfeitos. Não tinham lar, eram párias da pradaria (...)”, escreve em “Radiografia”.

Anos depois, o autor definiria sua “Radiografia” como uma espécie de “apocalipse” bíblico, uma “revelação ou exposição de uma realidade profunda”. Nessa interpretação pessimista da história e do caráter argentinos transparecem suas leituras de autores como Simmel, Spengler e Nietzsche (sobre este último Martínez Estrada escreveu um livro de ensaios, de 1947) e uma visão fatalista que não se limita ao país, estendendo-se a todo o continente, e, por fim, a toda a civilização ocidental.

Além de “Radiografía de la pampa”, Martínez Estrada produziu inúmeros ensaios tratando de temas ligados a seu país (ele se considerava “enfermo de Argentina”). Em “La cabeza de Goliat – Microscopía de Buenos Aires” (1940), escreveu sobre a metrópole portenha, concebendo a metáfora da capital como um polvo que oprime o interior do país com seus tentáculos. Outros livros do autor são “Sarmiento” (1946), sobre o escritor romântico e líder político do século XIX; “Muerte y transfiguración de Martín Fierro” (1948), sobre a obra do poeta gauchesco José Hernández; “El hermano Quiroga” (1957), sobre o escritor uruguaio. Seu último trabalho de fôlego publicado em vida foi “Diferenças e semelhanças entre os países da América Latina” (1962), que traça uma visão geral do continente e estabelece relações entre fatos ocorridos em tempos e lugares diversos.

A obra de Martínez Estrada permanece inédita no Brasil. O catálogo online da Biblioteca Nacional brasileira não localiza nenhum livro dele traduzido para português. Encontramos apenas uma edição brasileira do pequeno panfleto anti-imperialista “A verdadeira história de Tio Sam” (editora Fulgor, 1963). Ademais de não ter sido traduzido, Martínez Estrada é pouco conhecido no Brasil mesmo entre estudiosos de literatura hispanoamericana ou argentina. Tal situação possivelmente se deve, pelo menos em parte, ao relativo desconhecimento da obra de Martínez Estrada na própria Argentina, motivado pelo ostracismo sofrido pelo autor por razões políticas. A partir de 1956, com a deposição do presidente Perón, a ascensão de uma nova ditadura militar e a divisão da sociedade argentina entre entusiastas e opositores ao novo regime, Martínez Estrada foi escanteado por numerosos escritores, situados tanto à direita quanto à esquerda. Em textos desse período, Martínez Estrada dedicou-se a denunciar os núcleos de poder integrantes do aparato estatal sustentador do regime: “a justiça, o governo, o clero, o magistério, a banca, o quartel e a burocracia”, sem esquecer a imprensa e os intelectuais coniventes com a ditadura. Em discussão travada pelas páginas dos jornais Martínez Estrada criticou a guinada conservadora de Borges, recém-empossado diretor da Biblioteca Nacional, a quem definiu como “bajulador assalariado”; Borges, por sua vez, retrucou, chamando-o de “sagrado energúmeno” (alusão ao profeta Ezequiel).

Curiosamente, os dois escritores já haviam sido relativamente próximos. Borges saudou o lançamento de “Radiografía” e, tempos depois, diria que o lugar isolado de Martínez Estrada no panorama da literatura argentina se devia, em parte, a sua própria excelência: “Não projetou uma única sombra, não foi fundador de uma escola. Foi um ápice, não um ponto de partida. Por conseguinte, é esquecido ou ignorado.” O exigente Borges também elogiou a poesia de Martínez Estrada, a quem considerava uma das maiores vozes poéticas do país: “sua admirável poesia foi apagada por uma vasta obra em prosa”. Borges também o incluiu como um dos personagens ficcionais do conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, escrito em 1940 e incluído no livro “Ficções”.

Em anos recentes a obra de Ezequiel Martínez Estrada tem sido reeditada pela Interzona, de Buenos Aires. É o caso do volume de contos “Juan Florido/Marta Riquelme”, da peça em versos “Títeres de pies ligeros”, do romance inacabado “Conspiración en el país de Tata Batata”, da seleção de cartas e discursos “Mensajes” e da correspondência entre Martínez Estrada e Victoria Ocampo (“Epistolario”). Outro volume de contos, “La inundación/La cosecha”, saiu em 2010 pela editora 17grises, da cidade de Bahía Blanca. “Coplas de ciego” (1959), seu último livro de poemas, publicado já na maturidade, foi reeditado em 2011 pela editora da Universidade Nacional del Sur, da cidade de Santiago del Estero. E em 2008 a Biblioteca Nacional argentina lançou o ensaio “Filosofia do xadrez”, jogo do qual Martínez Estrada foi um aficionado e um estudioso durante toda a vida (a obra começou a ser escrita ainda nos anos 1920 e permaneceu inédita por quase 50 anos após a morte do autor).
Texto publicado no caderno "Pensar" do jornal "A Gazeta" de Vitória (ES) do dia 29/11/2014